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Carnaval 2024: Educação e Resistência Negra em Destaque

 

O Carnaval, uma festa originária de tradições pagãs, ganha um significado especial no Brasil, transformando-se ao longo dos séculos em muito mais do que uma simples celebração.

Tornou-se uma escola, um espaço de resistência e resiliência para as comunidades negras, pobres e periféricas do país. Além disso, é uma fonte de sustento para muitas famílias e um lugar de encontro e descoberta de identidade.

A educação proporcionada pelo Carnaval, especialmente por meio dos sambas-enredo das escolas de samba, é um aspecto fundamental desse evento. O samba-enredo não apenas entretém, mas também ensina, trazendo à tona histórias e tradições da cultura negra e indígena do Brasil.

Um exemplo marcante é o samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis em 1978, que despertou o interesse da autora pelo candomblé e pela cultura africana após ouvir sobre as três princesas africanas e a criação do mundo segundo a tradição iorubá. Essa experiência exemplifica como o Carnaval pode ser uma ferramenta educacional poderosa, introduzindo pessoas a aspectos importantes da história e cultura negra que muitas vezes são negligenciados pela educação formal.

No Carnaval de 2024, diversas escolas de samba em São Paulo e no Rio de Janeiro apresentaram enredos que celebraram e educaram sobre a cultura e história negra. A Acadêmicos do Tucuruvi destacou a religiosidade e filosofia de matriz africana em seu enredo “Ifá”, enquanto a Independente Tricolor trouxe a história das guerreiras do Reino do Daomé em “Agojie, a Lamina da Liberdade”.

A Mocidade Alegre, campeã do Carnaval de São Paulo, abordou as viagens de Mario de Andrade em “Brasiléia Desvairada”, enquanto a Vai-Vai homenageou os 50 anos do Hip Hop em “Capítulo 4, Versículo 3 – da Rua e do Povo, o Hip Hop: um Manifesto Paulistano”. No Rio de Janeiro, a Mangueira homenageou Alcione e a cultura maranhense, enquanto a Paraíso do Tuiuti destacou a resistência negra na Marinha Brasileira.

Esses são apenas alguns exemplos dos muitos ensinamentos proporcionados pelo Carnaval. O evento é verdadeiramente educador e poderia ser mais frequentemente celebrado ao longo do ano, trazendo consigo não apenas alegria, mas também conhecimento e conscientização sobre a rica história e cultura do povo brasileiro, especialmente da população negra.

No Rio de Janeiro, tivemos a Mangueira, que homenageou Alcione, nossa eterna Marrom e toda a cultura maranhense, que é eminentemente negra. A Paraíso do Tuiuti veio com Glória ao Almirante Negro, contando a história de resistência a escravidão na Marinha Brasileira sob o comando de João Cândido na Revolta da Chibata. A Portela apresentou o enredo “Um defeito de cor”, baseado no livro homônimo de Ana Maria Gonçalves que aborda de forma ficcional a história de Luisa Mahin, importante líder da Revolta dos Malês.

A Salgueiro levou para a avenida o enredo “Hutukara”, que fala e nos ensina sobre a riqueza da cultura do povo Yanomami. Enquanto a Vila Isabel reeditou o enredo “Gbalá – Viagem ao Templo da Criação”, história fictícia baseada na cultura yorubá de que as crianças e sua pureza são a salvação da humanidade.

E por fim a Viradouro, campeã do Carnaval no Rio, apresentou o enredo “Arroboboi, Dangbé”, que falou do culto ao Vodun Serpente e mostrou toda a riqueza da religiosidade de matriz africana e a sua importância para a preservação da história negra no Brasil.

Me detive nas escolas do Grupo Especial, mas teríamos tantos outros ensinamentos nas escolas dos Grupos de Acesso. O Carnaval é educador, por isso às vezes penso que poderíamos ter alguns carnavais por ano.

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